Quinta-feira, 1 de Outubro de 2009

PAI, DESISTI DE ESTUDAR! VOU SER ‘FAMOSO’!

1. Sempre que ouço a palavra ‘famoso’ eriçam-se-me os pelos que ainda me restam na nuca. Não são muitos, mas os necessários para se prolongarem num calafrio de pele de galinha que se estende até à náusea. Ser ‘famoso’ em Portugal, e um pouco por todo o mundo ocidental, deixou de ser fruto de algo que se fez, para passar a ser a rampa de lançamento de algo que se pretende vir a fazer. É a mais repetida justificação para a míriade de ‘actores’ e actrizes’ que pululam por aí e que são, ainda, imberbes manequins de fundo de catálogo duma agência qualquer. É a mesma explicação que ouço às centenas e centenas de ‘músicos’ em início de carreira com os quais me cruzo e que vão, no entretanto, estudando direito não vá o diabo tecê-las e essa coisa da ‘fama’ lhes correr mal. “Quero que o meu filho seja famoso pelas oportunidades que daí possa tirar”, é a frase mais vezes redita pelos pais dos inúmeros ‘talentos’ que diariamente pululam pelas dúzias de programas televisivos onde se começa por ser figurante e se acaba capa de revista de dentista ou ‘apresentador’ de concursos para mais ‘famosos’. Pelo meio, ficam invertidos os valores e os processos: salvo distintas excepções, já ninguém acredita que frequentar um conservatório, uma escola artística, viajar, ler, trabalhar, acrescentar mundo por dentro, possa valer mais do que um fugaz frame numa novela teen.

 

2. Depois já se criaram espaços exclusivamente destinados a esta nova profissão que é ser ‘famoso’. O ‘famoso’ entra por portas distintas nas discotecas fashion e ocupa o seu lugar no trono que lhe é destinado. Tem lugar de destaque em qualquer espaço público, seja num desafio de futebol ou numa romaria. Algo que lhe dê ou prometa visibilidade, e o ‘famoso’ estará lá. Uma vez instalado, convém que seja visto pelos comuns, o poviléu, aqueles que não o são mas gostariam de ser, também eles, ‘famosos’. Este profissional da ‘fama’, regra geral não fez ainda nada que o/a destaque, mas, ou porque o silicone lhe assenta bem ou porque namora com criatura de igual estirpe, ganhou, justamente, lugar cativo em revistas onde o que importa é como e com quem se está, mais do que a obra que supostamente um famoso deve apresentar. O nosso ‘famoso’ fala alto quando em público, exibe um moreno invejável todo o ano e sorri com dentes de teclado duma alvura infinita. Pode ser divorciado ou ter acabado de se casar, com cavalos brancos pelo meio e miosótis e dálias a esvoaçar, provavelmente numa praia do Alentejo. DJ’s a bombar, e meninos rosadinhos a depenicar o vestido de noiva feito por estilista, também ele ‘famoso’, e estão criados os ingredientes necessários para uma visão de mundo típica desta nova classe: um trabalhinho aqui, outro acolá, uma fotografiazita na Crónia Feminina, se esta ainda existisse. Uma noção de ‘carreira’ que, ou muito me engano, ou o ‘famoso’ pagará caro no futuro. É que esta palavra, ‘futuro, é algo que é implacavelmente incompatível com a ‘fama’, porque só existe na exacta proporção do empenho que se coloca na obra, no trabalho, no aperfeiçoamento de um projecto e que decresce exponencialmente com a inutilidade desta.

 

3. Esta nova categoria profissional, ‘famoso’, deveria ser tributada em sede fiscal, com direito a categoria própria no emaranhado da teia das finanças. Se há quem faça disto vida, e se as cerzideiras pagam impostos, ainda que a recibos verdes, porque deverão ser excepção os ‘famosos’? O ‘famoso’ vive de aparecer, convidado ou não. Deveria ser possível deduzir no IRS a quantidade de amigos ‘famosos’ que temos porque é nosso dever pagar-lhes o jantar e todas as despesas inerentes ao prazer que nos dá a sua companhia. Afinal somos nós quem mais beneficia quando ladeados por um ou dois ‘famosos’: toda a aldeia baba de inveja pela benesse e o privilégio que é conviver com cidadãos tão notáveis. O ‘famoso’ devia ter lugares de estacionamento devidamente sinalizados com um logótipo como, justamente, as grávidas e os deficientes. O ‘famoso’, ainda que generosamente goste de passear pelo meio do povo suado num shopping, por exemplo, deve a isso ser poupado, pelo que as grandes superfícies, farmácias, hospitais, e, regra geral, todos os locais onde possa existir gente que trabalhe, deveria ter corredores especiais para a ‘fama’, como nas ruas citadinas os há para os transportes públicos e prioritários, vulgo “BUS”, só que para ‘famosos’. Deveria mesmo ser distribuída pelos ‘famosos’ um passe, uma espécie de salvo-conduto ou mesmo um cartão plenipotenciário que os identifique inequivocamente. Poderia ser colocado ao peito, ao jeito de um agente da autoridade, com a palavra ‘FAMOSO’, assim, tal e qual, em maiúsculas, para que as pessoas que ainda não são assim lá muito, muito ‘famosas’, possam sair da frente e pasmar como nós, portugueses, bem gostamos de fazer, por exemplo, quando alguém faz um buraco na estrada e todos ficam intrigados. O ‘pasmanço’,é, de resto’, o estado de alma que está na antítese do ‘famoso’, porque este já foi à República Dominicana e portanto, a bem dizer, já viu tudo e não pasma com nada. Nadinha mesmo. E mais, com a crise que vai na justiça e os juízes a precisarem tanto de uma ajuda para aviar processos, porque não dar aos ‘famosos’ alguns casos para que estes os julguem? E o mesmo critério deveria ser aplicado às listas de espera dos hospitais: que importa um cirurgião qualquer se se pode ser operado por um ‘famoso’. Quem não escolheria esta segunda hipótese, heim? E por aqui me fico hoje. Como diriam alguns ‘famosos’ que tenho o privilégio de conhecer: “Prontos, Pá. Tá feito. Jokas e jinhos:”

 

 

Pedro Abrunhosa

 

Porto, 1 de Outubro de 2009

 

 

publicado por Um_Tuga_no_Mundo às 16:58
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